domingo, 17 de fevereiro de 2008

Comboio do Tua não sabe nadar!

Petition - SOS - The Tua Line Alive
Le Chemin de Fer de Tua ne sait pas nager! Pas de Barrage!
Não deixar afundar a linha do comboio nas águas da barragem
Foto de 1996. Os comboios vermelhos foram substituídos pela automotora, de cor verde. Ponte e Túnel das Presas
Domingo, dia 3 de Fevereiro de 2008, andei de comboio na Linha do Tua, reaberta dia 28 de Janeiro, depois de ter estado encerrada devido ao acidente mortal de 12 de Fevereiro de 2007. Temia que a CP, a pretexto do ocorrido, encerrasse em definitivo o que ainda resta, até Mirandela, do antigo trajecto da Linha do Tua a Bragança.




Perante o que parece ser o firme propósito de a EDP avançar com a construção da barragem, próximo de Foz-Tua, receio que a reabertura da linha seja apenas prenúncio de uma morte anunciada.






Temendo não voltar a ter oportunidade de viajar no Comboio do Tua, fui de Oeiras até lá, imbuído do espírito do peregrino que visita um lugar sagrado, e do cientista incumbido de registar em fotografia, para memória futura, o que resta do património colectivo ferroviário de Trás-os-Montes.



A viagem de comboio a Foz doTua começou e terminou na estação da Ribeirinha, no fundo da aldeia, mesmo à beirinha da margem esquerda do Rio Tua.

A Ribeirinha é um lugar de encanto. Começa pelo próprio nome, um carinhoso diminutivo evocativo de lugar frondoso à beira da água.

Mas o lugar não é apenas um éden bucólico rodeado de freixos, amieiros, choupos, pomares, hortas e olivais de cujo fruto, a azeitona, se produz o afamado azeite da Terra Quente.

É também espaço de recordações. Na minha memória afectiva perdura como o local onde na margem direita do Tua, se levava o centeio ao moinho, para o moleiro o transformar em farinha e farelo. Aí se pescava, se tomava banho, se lavavam os cobertores nos dias ensolarados de Verão, e onde se atravessava o rio numa balsa, para ir a pé à festa de Nossa Senhora da Assunção, no Cabeço de Vilas Boas.


O comboio partiu às 10h32. Entre a Ribeirinha e a estação de Abreiro o meu olhar acompanhou a sucessão de tristes montes, desolados, cheios de fragas. Ao passar pelo que me pareceu ser a foz de Cabrões, dei comigo a pensar, como se quisesse exorcizar um mal que me incomoda há anos, que era preciso falar com a advogada, sobre o processo em tribunal relacionado com o Ferrado.

A uns duzentos metros, antes de se chegar à estação de Abreiro, vêem-se os dois pegões da ponte medieval, destruída pelas cheias de 1909. Desta ponte, na antiga estrada real do Porto a Torre de Moncorvo, reza a lenda que foi construída pelo diabo numa só noite.

A estação fica em território pertencente ao Vieiro mas, curiosamente, chama-se estação de Abreiro, situada a uma distância maior e na outra margem rio.
Viajei no Comboio do Tua a primeira vez quando, seguindo os caminhos da emigração, parti com a mãe e quatro irmãos, da estação de Abreiro para o Brasil. A ponte, obra do engenheiro Correia Araújo, já existia. Antes da sua construção havia um barqueiro, o tio Álvaro, falecido com tuberculose, num hospital de Lisboa.

Galgada a passagem estreita junto à ponte, o Tua espraia-se, repousando do esforço, no largo meandro bordejado de altas encostas, cobertas por amendoeiras, oliveiras e floresta. A grandiosidade paisagística do lugar é deslumbrante!
Na Quinta da Pendurada, rica em restos de construções pré-históricas, as laranjeiras davam laranjas que eram um regalo aos meus olhos de criança.


Rio abaixo, empoleiradas nas encostas, ora graníticas, ora xistosas, surgem amendoeiras em maior número. Floridas, humanizam a paisagem agreste e, vistas do comboio, são um bálsamo para a vida.

O açude, na estação de Codeçais, faz também parte da minha memória de infância. Passei lá a primeira vez quando fui com a minha mãe aos Pereiros, para nos despedirmos da avó Luísa. Antigamente era assim, faziam-se quilómetros e quilómetros a pé.
Ao ver a beleza deste açude, e na encosta que sobe para a Sobreira, os socalcos das vinhas da Região Demarcada do Douro, sinto o coração dorido pela avidez do homem moderno. Como pode alguém pretender submergir este melodioso recanto construído pelos antepassados, em harmonia com a natureza?


Ponte da BrunhedaNa chegada à Brunheda, a chuva continua mansinha como o comboio, nos seus trinta quilómetros à hora. A ponte, construída com apoio de fundos comunitários, descobri-a na década de noventa, quando andei a planear uma viagem de alunos do Estoril a Trás-os-Montes. Perto da estação ficam as caldas de Carlão.




Na altura fiquei impressionado com a beleza dos caminhos que vão dar à ponte e com o bucolismo do lugar. Nas águas do Tua tomava-se banho, pescava-se e um rebanho de cabras descansava a sesta.
SobreiroAo longo do vale do Tua, de clima mediterrânico, surgem, aqui e além, alguns sobreiros, de onde se extrai a cortiça.




No comboio viajam seis passageiros e dois funcionários da CP. A carruagem tem aquecimento, os bancos são confortáveis e as janelas panorâmicas permitem observar a paisagem.


Et nous voilà à São Lourenço, uma aldeia termal, aninhada na vertente da encosta da Carrazeda que, vista de longe, se assemelha a um presépio. Tanto aqui como nas caldas de Carlão, a exploração económica das águas curativas já conheceu dias de maior esplendor. Em 1995 a CP demoliu a centenária estação contra a vontade da população.


Conheci São Lourenço há mais de dez anos, numa Primavera, quando os campos ficam cobertos de flores, desde as estevas ao rosmaninho. Experiência gratificante; se disppusesse de capital apostava no seu desenvolvimento e investia na aldeia.

Estação de Santa LuziaDurante alguns anos uma ponte metálica, construída pelos habitantes de Amieiro, unia a estação à aldeia, na outra margem. Levada por uma cheia no Inverno de 2001, aos moradores resta a travessia num teleférico que desliza manualmente através de cabos suspensos.


Passei por Amieiro casualmente, num dia de festa, quando a ponte metálica ainda existia. Na altura, alguém, mal informado, disse-me que podia atravessá-la e ir por ali, até à Carrazeda de Ansiães. Fui, mas fiz mal. A estrada, mais à frente, era um caminho para carros de bois. Várias vezes pedi ao meu filho “-Pedro, desce e vai tirar aquela pedra da frente!” e ele saía e desviava os calhaus, para o chassis do carro não bater neles.

A Linha do Tua, construída até Mirandela, entre 1884 e 1887, é considerada um dos mais belos trechos ferroviários do mundo.

Foi aqui perto, ao Km 6, na proximidade do apeadeiro de Castanheiro, que em Fevereiro de 2007, se deu o único acidente mortal, em 120 anos de funcionamento da via-férrea.





Até há 20 anos atrás, para ir de Lisboa ou do Porto a Bragança, o transporte ferroviário era o melhor meio. Com a chegada do IP4 a CP deixou de apostar na melhoria do caminho-de-ferro. O troço da linha de Mirandela a Bragança foi encerrado em 1991. Entretanto, no IP4, 230 pessoas perderam a vida entre 1993 e 2005.

















Nos últimos quilómetros, até Foz do Tua, o vale estreita-se mais, as vertentes são mais altas e as escarpas mais abruptas.

Sucedem-se túneis, do particular agrado dos amantes de viagens de comboio. Os comentários, de espanto e de regozijo, são inúmeros.

Passagem por Fragas Más, impressionantes penedias lisas que se precipitam a pique sobre o leito pedregoso de xisto, polido por mil enxurradas.

Junto à foz, a EDP construiu recentemente este estradão de 600 metros de comprimento, sem ter parecer favorável das autoridades competentes. As obras pararam em Janeiro de 2008 após os ambientalistas terem avançado com uma queixa-crime junto da Procuradoria-Geral da República. O próprio ministro do ambiente é acusado de pertencer ao lobby da engenharia hidráulica.


Um dos troços mais espectaculares da linha surge quando a automotora sai do Túnel das Presas, passa pelo tabuleiro metálico e os olhos se perdem deslumbrados a contemplar a paisagem vinhateira do Douro.

Foz-Tua
Cenário de deslumbramento
Estação do Tua
A automotora chegou ao Tua às 11h49. Olhando para a bonita estrutura metálica e os azulejos da estação, na azáfama de um ambiente ferroviário, apetece-me catalogá-la de kitsh e retro. Na verdade nem eu mesmo sei bem o significado exacto destas palavras mas soam-me bem! Acho que condizem com o sentimento saudosista que se apossou de mim, nesta atmosfera ferroviária de faroeste sem caubóis!

Planeara passar algumas horas na estação do Tua, antes de regressar à Ribeirinha, mas os horários do comboio não mo permitiram.
Tive quinze minutos, entre a chegada e a partida, para observar as margens do Douro, diante da estação. O cenário é de bilhete-postal ilustrado, fazendo lembrar cenas do filme de Manuel de Oliveira, Monte Abraão.

Há uma música da Mireille Mathieu “Vive le chemin de fer de l’arriére pays” que me ocorre, ao ver a locomotiva destruída. Que CP temos nós que tão mal trata o património ferroviário?

Flor de laranjeira

O comboio para Mirandela partiu ao meio-dia e cinco.

No seu trajecto inicial, a Linha do Tua acompanha o Douro, rio e região vinhateira, património da humanidade.

Na automotora seguem vinte passageiros, munidos de máquinas fotográficas e atentos à paisagem. São os turistas! Chegaram, minutos antes do embarque, nos comboios procedentes do Porto e do Pocinho.

No regresso à Ribeirinha, a chuva caiu com mais intensidade. Havia também um maior movimento de passageiros nas estações intermédias.
Na Brunheda subiu um senhor com dois sacos de grelos e uma cesta de maçãs, recordando-me o passado, quando o comboio a vapor ia atafulhado de gente, malas, cabazes, sacos e galinhas. Ao ver a cesta das maçãs – Biológicas, como agora, pomposamente se diz – pareceu-me sentir o cheiro saboroso que vinha do monte delas, guardadas no chão da sala da saudosa tia Luísa dos Pereiros.
Hoje, as maçãs, supostamente, em nome da defesa da nossa saúde, são embaladas, calibradas e homologadas de acordo com as normas europeias mas são insípidas!


Chegada à RibeirinhaÀs 13h21 regressava à Ribeirinha. A automotora continuou a sua marcha para Vilarinho das Azenhas, Cachão, Frechas, Mirandela e Carvalhais.


Como era hora de almoço, subi em direcção ao Cabeço de Vilas Boas. Na noite anterior, para apanhar o primeiro comboio, havia pernoitado na aldeia, em casa da senhora Balbina.
Apesar do nevoeiro e da chuva miudinha, podia ver-se, ao longe, a minha terra aninhada na divisória entre a Terra de Panóias e a Terra de Ledra.


Almocei no Café do Sr. António, como já noutras ocasiões aconteceu. Apetecia-me comer batatas cozidas com alheira e grelos. Mesmo não os tendo em casa, o senhor António foi à horta, à chuva, colhê-los. A refeição caseira, preparada pela Dona Ália, estava deliciosa!


Antes de partir para Chaves, ainda passei pela casa da senhora Laurinda, numa altura em que chovia torrencialmente, para comprar queijo de ovelha churra.
Horário do Comboio
Em Vilas Boas e na Ribeirinha foi difícil encontrar quem soubesse o novo horário dos comboios. O senhor José Pereira, revisor, teve a amabilidade de me dar uma cópia mas antes disso ainda implicou comigo, perguntando-me, com ar de autoridade suprema na automotora, se eu era jornalista. Não o sendo, condescendeu, não precisaria solicitar autorização escrita, para tirar fotografias!

Para concluir esta viagem de comboio, saúdo a oposição à construção da barragem por parte do Dr. José Silvano, presidente da Câmara Municipal de Mirandela, que ao contrário de outros autarcas da região, ninguém acusa de estar “preocupado em fazer um bom negócio”, vendendo a Linha do Tua à EDP.
Louvo todos os movimentos cívicos, colectividades e cidadãos que se manifestam em defesa da sobrevivência da Linha do Tua. Juntos, vamos conseguir!
No Rio Sabor foram salvas as gravuras rupestres,
No Rio Tua não deixemos afundar a linha do comboio nas águas da barragem!
Assinar
PETIÇÃO PELA LINHA DO TUA VIVA


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

O Entrudo em Lazarim

Graças à televisão, Portugal inteiro conhece o Carnaval de Lazarim, uma aldeia do concelho de Lamego. O que nele me fascina é a rusticidade das máscaras, em madeira de amieiro, e a preservação de rituais, como a leitura dos testamentos do compadre e da comadre, que noutros recantos se perderam na voragem uniformizadora do Carnaval urbano e tropical.

Nunca me mascarei mas como me agrada a pantominice, acredito que se fosse capaz de ultrapassar convencionalismos sociais, iria gostar de me «disfarçar». Assim, em vez de ser figurante, limito-me, como as pessoas vulgares, a ser mero espectador do Entrudo.


Não tivesse o GPS indicado, quando rodava pela A24, que estava tão perto de Lazarim, não me teria ocorrido ir até lá. Planos alterados, «butes» rumo à aldeia, espreitar o auto-designando «mais tradicional Entrudo» de Portugal.
Tendinha de Produtos Regionais
A aldeia fica encaixada num vale, rodeada de montes. Antes da existência de caminhos e estradas boas, o isolamento devia ser grande, o que ajuda a perceber a razão pela qual certos costumes permaneceram quase intactos até ao presente.





O Entrudo em Lazarim ficou marcado no sábado, dia 2 de Fevereiro, pela inauguração oficial de uma bica e do calcetamento da rua que lhe dá acesso. O presidente da Junta de Freguesia de Lazarim descerrou a lápide que comemora a efeméride e o presidente da Câmara de Lamego fez o discurso. No fim, povo e convidados bateram as palmas da praxe.

Sábado ainda não era dia de desfile dos caretos mas mesmo assim, apareceram alguns nas ruas, dando colorido à festa de inauguração da obra feita.




O trio do acordeão
Achei os moços fraquinhos mas como são aprendizes é de louvar o esforço que fizeram para animar a malta.
Há qualquer coisa de triste e lúgubre nas máscaras disformes de Lazarim






Tok´avacalhar
O grupo dos bombos veio da Serra da Estrela. Rua abaixo, rua acima, a rapaziada fez barulho











Prova de vinhos
Foi você que pediu um vintage?


Chapéus há muitos
Mas este tem pinta! É de se lhe tirar o chapéu! E foram vários os elegantes senhores, possivelmente amigos, ou de alguma confraria, que andaram pela aldeia adornados, no topo corpóreo, com ele.




Ficou provado que esta simpática e hospitaleira gente de Lazarim gosta mesmo de patuscar.

Por 5 €, o visitante fica com a caneca de barro, como recordação; bebe o vinho que lhe apetecer e come à discrição dos dois recos assados pelo senhor José Vicente que, entregando-me o cartão, se prontificou a ir a Chaves, prestar o mesmo serviço, a quem lho encomendar. O tlm dele é 965 483 972



Lazarim preserva as suas raízes no Museu da Máscara.






Entrudo, tempo de entrada na Quaresma.
Se, para uns, a prolongada quarentena do jejum religioso, é antecedida da festa profana da carne, da permissividade, do levantamento temporário dos interditos sociais e da inversão da ordem instituída, para outros, rígidos comportamentos sociais e rotineiros permanecem inalterados, mesmo durante o Entrudo.


quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

domingo, 11 de novembro de 2007

Le Trás-os-Montes Farouche

Em Terras de Bragança
Avó da Ribeira de Igreja, Vinhais com frango morto pelo cão
Quando adolescente e estudante de francês na Alliance Française, nos anos sessenta do século XX, comprei na Librairie Française, na rua Libero Badaró, em São Paulo, um Guia Turístico de Portugal, edições Larousse, sem fotografias mas ilustrado com aguarelas coloridas. Nessa época, no estrangeiro, devorava livros e revistas que falassem da pátria onde havia nascido e vivido a infância.
Não sei o que aconteceu a esse livro. Ficou em casa dos meus pais, quando parti de Santos, no Pasteur, e fui estudar para Paris. Deve ter sido queimado ou deitado ao lixo pela minha irmã. Gostava muito dele e por isso sinto uma grande mágoa, quando evoco essa perda.



Dele, ficou-me para sempre na memória, la beauté farouche de uma aguarela de Bragança, representando uma fortaleza altaneira, cercada de muralhas e rodeada de campos ondulados, semi-áridos. Não percebia bem a descrição de Trás-os-Montes, em francês literário, mas a palavra farouche fascinou-me, soou-me tão bem que nunca mais a esqueci.

Trás-os-Montes e, em particular, o Planalto de Bragança, aberto à vastidão desoladora da Meseta Castelhana, ficou sendo desde então, no meu imaginário, uma região farouche, palco de combates medievais entre mouros e cavaleiros cristãos.
A modernidade, trazida pela electricidade, pelos Itinerários Principais e, mais recentemente, pelas Tecnologias da Informação e da Comunicação, transformaram Bragança numa aldeia de um mundo globalizado, capa da revista Time. A realidade de hoje não se coaduna com a visão moldada na adolescência. Fico satisfeito com o progresso alcançado, medido em termos de mais rendimento, educação, saúde e acesso dos transmontanos a bens culturais.


Mas cada vez que volto como ave migratória, às terras de origem, sinto a presença do mundo farouche de antanho, na paisagem de fragas, negrilhos, carvalhos, castanheiros, urzes, tojos e em costumes renovados, de onde não desapareceram caretos, diabos, magustos, gaiteiros, fumeiro e expressivos “bôs”!