segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Folhas Caídas

Fallen Leaves
Margens do Tâmega em Chaves
Banks of the Tamega river in Chaves city



As margens do Tâmega, rio que banha Chaves, em dias de sol, em Novembro, ganham tonalidades de amarelo, castanho, vermelho e púrpura.
O ambiente propicia o recolhimento e a introspecção.
A nostalgia apodera-se de nós.
Caminhar sobre um tapete de folhas mortas, rodeado de coloridas árvores de folhas caducas, faz bem ao espírito e ao corpo, retemperado de energia.











Chaves é uma cidade termal com história.
A cidade tem quatro pontes. A ponte romana é o must, o bilhete postal que nenhum fotógrafo perde!

A mais recente das pontes, para peões, é esbelta. Constitui um novo ícone, contribuindo para tornar Chaves mais convidativa aos olhos dos visitantes e para reforçar nos seus habitantes os laços de ligação à cidade.
Cada vez gosto mais de Chaves, cada vez mais me afeiçoo a esta cidade. Parte da minha história - memórias, afectos ... passa por aqui.

domingo, 16 de novembro de 2008

L Gueiteiro I L Burrico

O Gaiteiro e o Burrinho
The piper and the little donkey



Paradela - Miranda do Douro
Ponto de partida do passeio de burro
Gaiteiro e bombo acompanham o passeio






























Estamos aqui reunidos em nome de Cristo na natureza














Almoço campestre






Juntos na festa mas em mesas separadas para o almoço














Bailareco animado pelo gaiteiro

















































E toca o burro!
Pró ano há mais passeios!










quinta-feira, 13 de novembro de 2008

L Brano de San Martino

Verão de São Martinho nas Terras de Miranda~
Indian summer at Miranda do Douro country

A AEPGA – Associação para o Estudo e Protecção do Gado Asinino promoveu em diversas aldeias do Planalto Mirandês um passeio cultural denominado, em mirandês, "L Brano de San Martino", nos dias 7, 8 e 9 de Novembro.


Jantar micológico na aldeia de São Joanico, Vimioso
Micological dinner in the village















Os cogumelos são uma riqueza de Trás-os-Montes. Na Cena de San Martino foram servidos 20 kg desta iguaria.







O delicioso jantar foi preparado pela Dona Rose, simpática brasileira do Pantanal. Ela e o marido trabalham numa casa de turismo rural, onde aliás fiquei hospedado - a Casa dos Pimenteis, em Vale de Algoso, Vimioso.










Na jantar participaram dezenas de turistas de várias regiões do país desejosos de conhecer a cultura local, e habitantes de aldeias do Planalto Mirandês.




Tive a sorte de ficar na mesa ao lado destas duas senhoras. Bem dispostas, cantaram a famosa Sarandilheira, em mirandês, e o orgulho de serem trasmontanas.



Após a Cena de San Martino de que não faltou à sobremesa o saboroso queijo com mel, realizou-se no eirado de São Joanico um



Magusto e Arraial
Roast chestnuts, bagpipe and dance













Havia diversos gaiteiros e bombos para animar o arraial.












Castanhas assadas na brasas, de forma tradicional

























Bailarico ao som da gaita de foles e de bombos













Apesar do frio o arraial durou até de madrugada.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Acidente no Comboio do Tua

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Accident at the Tua Line
The Portuguese rail company - CP - is maintaining the line and ensure passengers safety?
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O que a CP não vê
Faz hoje dois meses que, por milagre, a minha mulher e eu não perdemos a vida no acidente ferroviário, ocorrido na Linha do Tua, às 10h35’ da manhã do dia 22 de Agosto de 2008.
Penso nos meus filhos e fico angustiado só de pensar no futuro incerto deles, trabalhando em regimes de contrato a prazo e de recibos verdes, sem o sustento dos pais. Ficaram abalados com a notícia do acidente e que a mãe, em estado grave, tinha sido levada de urgência para o hospital de Vila Real. Sofrem com a dor dos pais. Ainda hoje recusam ver imagens que apenas eu vejo, como que para exorcizar o espectro da morte.

No momento em que o comboio descarrilou eu estava em pé, agarrado ao varão junto à porta de entrada da frente, a tirar fotografias à paisagem. A automotora, na recta da Brunheda, sem ter parado na estação, seguia em velocidade de cruzeiro, em direcção ao Douro, quando começou “aos saltinhos”, se inclinou para o lado esquerdo, contrário ao da ravina do rio, perdeu equilíbrio e, em poucos segundos, tombou para uma pequena inclinação de terreno ali existente, arrastando-se ainda mais um pouco, até parar, ficando imobilizada num muro de socalco e no declive de uma vala de escoar a água das enxurradas, por baixo da via-férrea.

Imediatamente a seguir ao embate ouvi gritos e vozes a procurar por familiares. Ao meu lado, um passageiro começou a partir os vidros da frente para podermos escapar. Agarrado ao varão, não fui projectado para o tecto da automotora como outros. O meu amigo foi a primeira pessoa a quem ajudei a levantar-se. Quando o vi caído no chão pensei o pior. Ele, a mulher e a filha tinham chegado de Lisboa, na véspera, a Vilas Boas. Era nossa intenção, depois da viagem de comboio ao Tua, visitarmos os lugares que a telenovela A Outra tornou conhecidos dos portugueses.

Refeito do susto, fui procurar a minha mulher. Ela viajava sentada, mais atrás; vinha, feliz, à conversa com a mulher do meu amigo. Chamei -a mas não me ouviu. Encontrei-a do lado de fora, junto ao muro de socalco, sem poder andar, testa e boca ensanguentadas, e osso frontal descarnado, à vista. Desviei o olhar e contive a emoção. Ajudado por um turista inglês e outro passageiro, levei-a para cima, até à via-férrea, por onde caminhamos alguns metros, até ficarmos afastados do comboio, em segurança. Diziam que havia perigo de explosão.


Ficamos na berma da via, ela deitada, com a cabeça apoiada no meu colo, à espera de socorro. Para estancar a sangria, uma senhora atou-lhe na cabeça uma cortina tirada da janela do comboio e a passageira inglesa deu-me uma garrafa de água para lhe lavar os lábios ensanguentados.










A assistência tardou a chegar.
Entre o acidente, ocorrido às 10h35’ e a chegada da equipa que a socorreu, às 11h38’, passaram-se 63 minutos; uma eternidade naquelas circunstâncias, que poderia ter sido fatal.

A demora na prestação de auxílio aos sinistrados deve-se fundamentalmente ao facto de os telemóveis, sem rede ao longo do vale, terem tardado a ligar para o 112.
O próprio maquinista teve de ir a pé até à estação da Brunheda, distante 1 km, pedir por socorro porque o comboio não estava equipado com meios técnicos de comunicação que, era suposto ter, no século XXI, um comboio a circular numa via-férrea onde recentemente tinham ocorrido três acidentes e provocado três mortos.



Como os técnicos do INEM não me deixaram seguir na ambulância, eu e outros passageiros que não ficaram feridos, fiquei na estação da Brunheda à espera que nos viessem retirar dali. O INEM deu-nos água e mediu-nos a tensão. A CP não deu a cara. Apareceu um presidente de câmara a prometer transporte em duas carrinhas de nove lugares mas até à hora de me vir embora, perto das 14 horas, não vi nenhuma.

Foi uma senhora, moradora numa casa junto à estação que, vendo a minha ansiedade, pediu ao filho para me levar ao Centro de Saúde da Carrazeda de Ansiães. Fui eu e o meu amigo. Ele ainda não sabia que a mulher tinha sido levada para o hospital de Mirandela.
Só no Centro de Saúde é que consegui ter rede e foi, lavado em lágrimas e soluços, como nunca imaginei, que dei a notícia à minha cunhada, médica, e à minha filha, ambas em Lisboa. No centro de saúde cobraram-me cinquenta cêntimos para chamar um táxi que me levasse à estação da Ribeirinha, onde havia ficado o carro, antes de inicio da viagem de comboio.
Acompanhei o meu amigo à urgência do hospital de Mirandela e depois segui pelo IP4 até ao hospital de Vila Real, debaixo de grande tensão. Pelo caminho, a minha cunhada ligou-me, acalmando-me, dando-me conta do estado de saúde da minha mulher e dos contactos que tinha tido com equipa médica que estava a tratar dela.
Alguns minutos depois de a ter reencontrado viva, num corredor do hospital, deitada numa maca, um médico enviado pela CP, aproximando-se de mim, perguntou-me se eu era o tal passageiro que nas declarações aos mass media, tinha dito pertencer ao Movimento Cívico pela Linha do Tua e que a direcção da CP devia ser julgada em tribunal pelos acidentes ocorridos. Indignado com a pergunta, confirmei ser o próprio. Sobranceiro, respondeu-me secamente que “-Era só para ter a certeza!”.
Dia 15 de Outubro, no centro médico da CP, em Lisboa, onde a minha mulher está a fazer fisioterapia e a ser acompanhada por uma psiquiatra e uma psicóloga, esse mesmo médico representante da CP, no estilo de quem não gosta de ouvir o que não está à espera que lhe respondam, ferindo o meu ego, deu-me ordem para sair do gabinete dele, como quem enxuta um cão, alegando impossibilidade de diálogo entre nós.


"-Olho para o espelho e vejo o meu olho deslocado" Conversa telefónica com amiga, em 26-09-2008
Nas duas ou três vezes em que falámos ao telefone, chocou-me a sua sobranceria. Cada vez que, à boca cheia, me dizia que “A CP paga tudo!” e eu lhe manifestava a minha discordância e indignação, ele, exaltado, punha ponto final à conversa.




No dia do acidente, a minha mulher depois de ser vista no hospital de Vila Real, foi enviada numa ambulância para o hospital de Chaves, onde lhe deram alta. Deitada numa maca, sem poder andar, a pretexto, não sei de quê, foi enfiada por dois bombeiros no banco do nosso automóvel, para eu a conduzir até à aldeia, distante 25 km, e lá sujeitar-se ao esforço de subir os degraus da escada da casa.
No dia seguinte, porém, os noticiários minimizavam o acidente “-Já regressaram a casa os feridos internados …”.



Ninguém nos telefona a perguntar como estamos de saúde. O gabinete de Relações Públicas da CP só entrou em contacto comigo uma vez, quando a pressão dos meios de comunicação social era mais forte. Recebi cartas dos hospitais de Vila Real e de Chaves a pedir o pagamento das taxas moderadoras e o nome da companhia de seguros mas a CP, através do seu representante, mandou-me devolve-las, alegando que isso era da responsabilidade do metro de Mirandela.


A minha vida mudou muito depois do acidente ferroviário. Estava reformado de professor havia pouco tempo. Tinha ido de férias para a aldeia descansar de um ano lectivo desgastante; tencionava ler no escano da cozinha a biografia do rei Dom Carlos e, longe da turbulência do liceu por causa da divisão dos professores em titulares e tarefeiros, tinha planeado passear por Trás-os-Montes, Galiza, Astúrias, País Basco e Vale de la Loire. Após o acidente tive que dizer adeus às coquilles de Saint Jacques nas Rias Baixas, às minas de carvão do Bierzo ...

Com a mulher deitada no escano passei eu, alem de motorista e enfermeiro, a ser doméstico a tempo inteiro. A primeira coisa que aprendi foi aperceber-me da necessidade de o ser humano, tal como os animais, procurar alimento para sobreviver. Passei a olhar o acto de comer não apenas como um acto de cultura em que, sentados à mesa, estabelecemos relações inter-pessoais. Aprendi que se tira a pele aos pimentos assados …



Cumprindo as instruções que ia recebendo lá me fui safando, entre suspiros e dores nos rins. Também cheguei à conclusão que não tenho muito jeito para cozinhar, faço tudo muito aldrabado, mesmo quando, com gosto, me predisponho a fazer doce de abóbora cultivada por mim. Há coisas simples de fazer mas mesmo nessas é preciso dominar a arte de as fazer bem. Quem diria, por exemplo, que as camisas devem ser estendidas com o colarinho virado para baixo? Fiz de tudo, só não passei a ferro graças à ajuda pontual de alguma vizinha, amiga e filha que nos foram visitar. Contratar uma mulher-a-dias foi algo que a CP não admitiu que fizesse.


"-Tenho pena do que vou deixar de fazer" Ao telefone com a amiga Fernanda em 26-09-2008
A CP não vê as sequelas deixadas nos sinistrados - marcas físicas, incapacidades intelectuais, insónias, fobias, stress ... , nem vê o estado do caminho de ferro da Linha do Tua.




É acusada de incúria nos meios de comunicação social mas ninguém é responsabilizado.








Os resultados de inquéritos aos anteriores acidentes não são publicados. Dois meses depois do acidente de 22 de Agosto, ainda não foram divulgadas as causas. Que foi feito à "caixa negra" do comboio? Porque se omite a que velocidade seguia?
É preciso ser técnico altamente qualificado para diagnosticar o estado da linha do comboio no local do acidente?

Quem acredita na história do hipotético abatimento de terras em tempo seco e em vistorias que se diz serem feitas diariamente?
Todos os que defendemos a preservação da Linha do Tua, devemos estar muito atentos.
Brunheda, voltada para o vale do Rio Tua