terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Sabores Transmontanos II

Feira da Caça
Macedo de Cavaleiros


Sábado, dia 31 de Janeiro de 2009, andei numa roda-viva! De manhã fui ao Festival de Sabores do Azeite, em Mirandela; à tarde estive na Feira da Caça, em Macedo de Cavaleiros; e à noite fui a Chaves, à Feira Sabores e Saberes.


Do IV Festival de Sabores do Azeite Novo, em Mirandela, não vi rasto. A quem perguntei onde era o “Mercado de Rua”, constante no programa do festival, ninguém me soube responder! Como também não dispunha de tempo para participar nos petiscos em Romeu nem no percurso pedestre de Vila Verdinho ...



... parti, pelo IP4, para Podence, onde a senhora da tasquinha da Casa do Careto me fez o almoço.

Depois de ter comprado umas máscaras de zinco fui para Macedo de Cavaleiros, situada a poucos quilómetros, no planalto das faldas da Serra de Bornes. À cidade, modernaça, sobeja em dinamismo o que lhe falta em história.

Falcoaria

Sem indústrias, Macedo de Cavaleiros, para se desenvolver, tem apostado no turismo cinegético. Durante a XIII Feira da Caça e III Feira de Turismo, entre 29 de Janeiro e 01 de Fevereiro de 2009, teve lugar a II Copa Ibérica de Cetraria disputada nas modalidades de altos e baixos voos, com falcões e águias, respectivamente. Na Feira da Caça só vi as aves. No entanto já assisti a voos de exibição de aves de rapina em Chaves, na Feira Medieval de 2008.




Armas de caça, antigas e modernas ...

... a preço de feira!


Vários estabelecimentos comerciais de caça, pesca e vestuário fizeram-se representar na Feira da Caça e de Turismo. Como a relação entre o preço e a qualidade era bastante convidativa não resisti a comprar uns sapatos e umas bonitas e boas botas, quase iguais ao calçado que de manhã tinha ido levantar no Mercado Municipal de Mirandela, ao artesão a quem tinha feito a encomenda em Dezembro passado. Não sei o que me deu para comprar quatro pares de calçado em poucas horas! Mas não estou arrependido, já andava farto das vigarices da Timberland, nos últimos tempos a vender gato por lebre.




Tiro ao alvo com arco e besta.
As centenas de caçadores que acorreram à Feira da Caça, para participar em actividades como a montaria ao javali e a Prova de Santo Huberto, na qual o desempenho dos caçadores é avaliado, fazem com que esta seja diferente, para melhor, de outras feiras de sabores e saberes.

Os caçadores, senhores educados e com elevado poder de compra, com seus inconfundíveis chapéus, vestuário característico e espírito de grupo, por onde circulam, imprimem uma aprazível atmosfera kitsch.



Hola Puebla de Sanabria!
Pedi a estes jovens espanhóis que vissem no meu blogue a foto que lhes tirei na feira. Espero que o façam. O queijo de cabra, o salpicão de veado e outras iguarias que lhes comprei souberam-me bem!

Como nas demais feiras de saberes e sabores, produtores de fumeiro marcaram uma forte presença.

Os enchidos são uma tentação!
Miniaturas de casas tradicionais transmontanas.
A Maior Sela do Mundo

Trás-os-Montes já tinha entrado no Guiness, o livro dos recordes, com o maior assador de castanhas e o maior pote de ferro do mundo. Agora tem também a maior sela, uma das atrações da feira da caça.

A colossal sela, dezenas de vezes maior que uma sela normal, mede 2,92 metros de comprimento e pesa 230 quilos. Foi feita por dois artesão de Torre de Dona Chama, vila com grandes tradiçoes de artesanato.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Sabores Transmontanos I

Feira do Fumeiro de Montalegre


Feita a matança do porco em Dezembro, e passado o tempo de cura do fumeiro, a partir de Janeiro realizam-se feiras de saberes e sabores em diversos concelhos de Trás-os-Montes, para comercialização de iguarias, que são um verdadeiro hino à gastronomia regional.


Durante o tempo que estive na aldeia, em Trás-os-Montes, coincidente com diversos nevões, como há muito não se via, em quantidade e intensidade, andei de feira em feira do fumeiro, aos fins-de-semana.

A primeira feira em que estive presente, a Feira do Fumeiro e do Presunto de Barroso, na sua XVIII edição, realizou-se de 22 a 25 de Janeiro de 2009.

Sábado, sob um frio intenso, prenunciador de queda de neve no Larouco, subi até às Terras de Barroso, tendo chegado a Montalegre a meio da tarde.




No interior do recinto da feira havia uma bem documentada exposição etnográfica de artefactos utilizados no meio rural da região barrosã até há algumas décadas atrás. As novas gerações e pessoas que tenha nascido e vivido no meio urbano ficam assim com uma boa ideia de como era a vida no campo.





O Pavilhão Multiusos, apesar de grandioso, em altura, está mal concebido e tem uma estética pouco acolhedora, dando origem a que os numerosos visitantes circulem sem desafogo por corredores estreitos, semelhantes a um labirinto.




Quando o Paulo Portas passou pela feira, rodeado de um batalhão de jornalistas, não se podia andar! Nessa altura houve quem se sentisse incomodado com a presença do político e, revelando falta de cultura democrática, invectivasse a presença dele no espaço da feira.



Nunca tinha estado na Feira de Montalegre. Habituado a comprar bom fumeiro a produtores domésticos, surpreendeu-me o preço elevado do fumeiro praticado na feira, onde nem sequer há concorrência porque os preços de venda são previamente combinados entre a organização e os produtores.











A feira pode ser um bom negócio para quem produz mas não será o local mais adequado para o consumidor negociar preços mais adequados. Mas, apesar de alguma cautela, não resisti a fazer algumas compras.



A animação musical esteve representada por diversos grupos de gaiteiros. O som da gaita-de-foles, telúrico, a condizer com as cores da paisagem transmontana, encanta-me sempre!

Fiquei muito admirado com a quantidade de visitantes que deixavam a feira do fumeiro em autocarros lotados, vindos do Minho e do Douro Litoral. Penso que isso só é possível porque deve haver uma boa organização a “arrebanhar” turistas para a visitar. Nas feiras de Chaves, Vinhais e Macedo de Cavaleiros não vi nada igual!



Em Montalegre, além do fumeiro, também era fácil encontrar folar de carne e pão cozido em fornos de lenha. Apesar de não sofrer do pecado da gula, a tentação para me abastecer foi irresistível!




Gostei muito desta sopa que o rapaz da pêra me garantiu ser típica do Barroso!
Visitada a feira dirigi-me à Capital do Móvel onde, no dia seguinte, me esperavam outros afazeres!

domingo, 28 de dezembro de 2008

Bruma Matinal no Rio Tua

Morning Fog in Tua River



Sem nada urgente para fazer em Travancas, decidi ir ao Ferrado, no Domingo, dia 23 de Novembro. Tencionava deixar o carro na Longra, descer o Tua até à foz de Cabrões, subi-lo até ao Ferrado e regressar!

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Na véspera, fui dormir a Vilas Boas. Pela manhã, visto da varanda da dona Bina, o monte frente ao Cabeço, banhado de sol, prenunciava mais um dia de Verão de São Martinho.




Ao descer a estrada para Vilarinho das Azenhas, comecei a avistar cabeços navegando no mar de nevoeiro do vale do Tua.
 







Deslumbrado com a paisagem ...





... Paro a cada curva, para fotografar a vastidão de montes de Trás-os-Montes que vão surgindo diante de mim.

De surpresa em surpresa, detive-me, extasiado, à entrada de Vilarinho, a contemplar a vinha, coberta pela névoa.





Estava entretido a fotografar a paisagem, quando, vindos das brumas, se aproximaram de mim dois caçadores, acompanhados por quatro cães. À cintura não traziam qualquer perdiz ou coelho, como troféu de caça e sinal de boa pontaria.






A vinha, com as parras ainda presas às vides, estava submersa no nevoeiro matinal. Neste cenário de encantamento, fascinava-me a exuberância de cores, abarcando diversas tonalidades de amarelo, castanho e vermelho.

 
Finalmente, cheguei ao rio Tua! O cenário, uma ode ao Criador, de tão belo, parece um quadro surrealista, humanizado pela presença do homem.

O rio brumoso e as folhas mortas, propícios ao recolhimento, eram palco da grande azáfama de mais de uma dezena de pescadores.
 


Atravessei a ponte de Vilarinho das Azenhas, uma ponte romântica, de onde os pescadores lançavam iscos aos peixes. Envoltos na neblina, mal se lhes diistinguiam os vultos.

 
Na freguesia de Barcel, junto à margem do rio, deparei com este pequeno choupal.
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O choupo é uma árvore esguia. Despida da folhagem caduca, torna-se ainda mais esbelta.


A visão do rio, emergindo das brumas, evoca em mim, por uma desconhecida associação de ideias, a marcha nupcial da ópera de Wagner. No enrêdo, Lohengrin, o misterioso cavaleiro do Santo Graal, chega, num barco puxado por um cisne, ao julgamento da sua futura esposa, na enevoada Brabante.
 

Ao passar pelas amendoeiras, despojadas de folhas, flores e frutos, como seres arqueados, a bailar na manhã cinzenta, e ver o pombal a desaparecer na neblina, no cimo do campo semeado, senti-me criança, no umbral de um mundo encantado de gnomos, duendes e de outras forças da Natureza.
 


Em Barcel e na vizinha Longra, aldeias rodeadas de olivais, já o nevoeiro se dissipava no alto dos montes. As centenárias oliveiras trazem-me à memória uma história da avó paterna, ouvida à tia Emília. Segundo ela, a avó, uma rapariga vistosa, foi enganada, quando veio a Barcel, à apanha da azeitona ...




Em tempos, passei por Barcel, sem me aperceber da beleza paisagística e edificada da aldeia. Agora, chocou-me o desleixo a que é votado o património religioso. Que valores transmitem a capela em ruínas e o depósito de ferro-velho?
 

O mesmo desleixo se nota na capela da Longra, onde o bonito retábulo do altar barroco, provavelmente do século XVIII, tem a madeira apodrecida. Bem pode Santo António levantar as mãos ao Céu, que não há Ministério da Koltura que lhe valha tamanha incúria!
 

 
Agradou-me a parede pintada de azul, nesta casa tradicional de xisto, à entrada da Longra. Restaurada, ficaria bem bonita! Contudo, infelizmente, a recuperação de arabecos, sem apoio das câmaras municipais, sensibilizadas para a preservação do património, não está ao alcance de todas as bolsas.






Na Longra, calcei as botas velhas da tropa e desci até ao rio. Nessa altura, a bruma matinal já tinha levantado e evaporado. Ancoradas à margem, lá continuavam, poéticas, as velhas balsas.
 

Neste Éden de tranquilidade, vestido com as cores do Outono, uma sensação de bem-estar entranha-se em nós. E em comunhão com a natureza, deixamo-nos ficar, deambulando por ali .
 

 
Na outra margem, na Ribeirinha, avista-se uma azenha abandonada, marco da indústria de moagem local, vencida pela modernidade. Em Agosto, no dia 22, estive lá a fotografá-la. minutos antes de entrar no comboio que descarrilou na Brunheda.
 



 
Nesse acidente ferroviário, o quarto em ano e meio, morreu mais uma passageira. Não sofri danos físicos, mas a minha mulher ficou gravemente ferida. Continua em tratamento, sem se saber até quando. Campeia a impunidade … A revolta inicial vai cedendo ao desalento. Sinto-me morrer devagarinho ...



A Linha do Tua não reabriu e tem morte anunciada, se a barragem for construída. Vejo-a, e ao rio, cá do alto, um lugar ermo e de difícil acesso, onde, para grande espanto, fui encontrar uma piscina e uma pista de helicópteros.



Virei costas a Barcel e olhei em direcção a Cabrões. Tendo de estar em Chaves às 18h30, era escasso o tempo para ir ao Ferrado.
Decidi adiar a caminhada por Cabrões acima, trocada, na enevoada manhã de Outono, pelas fotos do vale do Tua ...
... E parti, do cu de Judas, à demanda de um caminho seguro, para Aquae Flaviae.