terça-feira, 10 de março de 2009

Neve nas Terras Altas de Trás-os-Montes

Viagem pelas estradas transmontans em dia de nevão


Depois de ter estado dia 25 de Janeiro em Montalegre, na feira do fumeiro, e depois de ter ido a Paços de Ferreira, regressei, no dia seguinte, à aldeia em Trás-os-Montes. Apanhei a auto-estrada A7 em direcção a Vila Pouca de Aguiar. Fazia muito frio.

Entretanto, no noticiário da rádio, dava-se conhecimento da queda de neve em Trás-os-Montes, do fecho do IP4 e da A24 nos pontos mais altos, e apelava-se aos condutores para não se dirigirem à região para ver a neve cair.




Quando cheguei à Serra do Alvão já tinha parado de nevar e a circulação na A7 era normal.





Depois de ter feito uma paragem nesta gasolineira ...
















...continuei pela A7 em direcção a Vila Pouca de Aguiar.







Ao chegar ao nó de ligação à auto-estrada A24, em vez de virar para Chaves, o meu destino ...
... segui em sentido oposto, em direcção a Vila Real.
Na auto-estrada A24, o trânsito aos veículos automóveis tinha sido reaberto e as máquinas de limpar neve circulavam nos dois sentidos.
O manto branco cobria os pontos mais altos da A24. Mesmo sem neve, este trecho da auto-estrada, em Vila Pouca de Aguiar, é fantástico pelo panorama que dele se desfruta.
A partir do viaduto dos lobos, a A24 desce em direcção ao vale do Douro, deixando de haver neve na cota abaixo de 600 metros.
Na saída da A24, para a estrada nacional N2, fiz inversão de marcha e retomei o caminho em direcção a Chaves.
A tentação de ir mais longe, até ao Marão, era muita mas começava a fazer-se tarde para me meter em aventuras.


Como é bela a Serra do Alvão coberta de neve! Como é belo o Reino Maravilhoso! Os meus olhos deslumbraram-se com o majestoso manto de brancura, diante de mim.
O nome, Vilarinho de Samardã, celebrado por escritores, traz-me à memória imagens de uma aldeia, escondida na serra, recheada de espigueiros. Sonho então que hei-de lá voltar e caminhar até ao Tojo do Lobo!

Nó de ligação à auto-estrada A7. Não saí; continuei pela A24 em direcção à fronteira com a Espanha.

Já tinha escurecido quando, na estrada municipal, na cota dos 600 metros, reencontrei a neve. A poucos quilómetros de casa receava que o carro, sem correntes, não pudesse subir mais e me visse na contingência de ir a Chaves passar a noite num hotel.

Depois de ter superado o ponto mais íngreme da encosta para o planalto onde está Travancas, cruzei-me com este camião espanhol, carregado de leite, resvalado na berma da estrada e a ser socorrido por um potente tractor.
Cheguei são e salvo a casa. Uma força divina vela por mim!



Na aldeia da Terra Fria o silêncio era profundo, só o cão ladrava
Vídeos da Viagem

Na auto-estrada A24, Vila Pouca de Aguiar, em dia de neve

Na estrada de São Cornélio, Chaves, debaixo de neve

segunda-feira, 9 de março de 2009

Sabores Transmontanos IV

Vinhais, Capital do Fumeiro
07-02-2009



De Moimenta da Raia, onde estive à procura da Fraga dos Três Reinos, parti para a feira do fumeiro, em Vinhais, subindo, e depois descendo, por uma bonita estrada, no meio da neve.









Vinhais, capital do fumeiro. Título bem merecido, o desta vila de Trás-os-Montes.

Apesar do frio, estava uma linda tarde de Sol. Tinha nevado no dia anterior e a neve cobria de branco a Serra da Coroa. Sentia-me deslumbrado com a paisagem à minha volta.




Bons negócios em perspectiva!

Ao descer para Vinhais, o sol e a paisagem nevada foram desaparecendo gradualmente.

Na feira, perdida a chega, dirigi-me ao pavilhão das tascas para petiscar. Optei por um prato de presunto com queijo, pão, vinho e, de sobremesa, pudim de castanha. A empregada de mesa não tinha mãos a medir e, quiçá, sobrecarregada de trabalho, excedeu-se na conta, tendo de refazer a soma!

Reconfortado pelo petisco, dei a volta ao pavilhão de venda do fumeiro, mostra de artesanato e espaço "gourmet".


O porco bísaro é o rico porquinho que dá sustento a famílias vinhaenses e consola consumidores ávidos de experimentar a gastronomia transmontana.


Tenho vindo a Vinhais às feiras da castanha e do fumeiro e noto sucessivas melhorias nas infra-estruturas.
A organização, marcada pelo profissionalismo, cultiva o sentido do belo, evidenciado no uniforme usado pelas feirantes e na decoração dos quiosques, alguns com bonitos louceiros tradicionais.


Por parte do poder público houve o cuidado de limpar a neve das estradas para os visitantes chegarem em segurança à feira.
Senhor presidente da câmara não maltrate os professores do seu concelho por causa da neve e do gelo! Não lhe fica bem a animosidade contra os docentes!

-O presunto está a 1.800$00 escudos o quilograma mas eu faço-lhe desconto, vendo-o a 10 euros! – dizia-me a senhora mais velha, de Vila Boa. Deu-me vontade de rir com as contas dela mas, desfeito o engano, e depois de apalavrar que o presunto tinha mais de um ano de cura e de afirmar enfaticamente que aceitava a devolução se não estivesse bem curado, fechámos negócio, mesmo sem o selo de certificação de garantia! É o último, dizia, visivelmente satisfeita! Mas a satisfação é geral, comum aos produtores das feiras de fumeiro.


Vir à feira do fumeiro em tempo de neve, é uma experiência gratificante! Seria fantástico que todos os anos caissem nevões, em quantidade e intensidade, semelhantes aos deste Inverno!


Ao lado das máscaras de madeira, tradicionalmente usadas pelos caretos de Ousilhão nos seus festejos, juntam-se bonitas máscaras de barro, feitas com fins decorativos.

Vinhais fica numa encosta muito acentuada da Serra da Coroa. Praticamente só tem uma via, que não mais acaba, transversal à falda da serra. Apesar de ser uma vila pequena, tem edificios seculares, alguns deles muito bonitos, valendo a pena preservá-los. O seu património cultural é dos tesouros mais valiosos de Trás-os-Montes.

Escultura de 5m de altura, em tronco de castanheiro Autor – Paco Pestana (Espanha). 2006
Crónica doce de uma triste derrota
"No ano de 1666, as tropas espanholas, comandadas pelo general Pantoja, cercaram a vila de Vinhais numa fracassada tentativa de conquista. Heroicamente, os vinhaenses defenderam o seu castelo, a partir das muralhas, recorrendo a todo o tipo de armas, entre as quais as suas ferramentas de trabalho no campo, derrotando os invasores."
À medida que conheço a história de Vinhais, descubro que o portuguesismo, nestas gentes da fronteira, está muito enraízado.






Cumpriu-se a tradição!
Há vários anos que a vila de Vinhais, depois da feira do fumeiro, desce até Oeiras para realizar uma mini feira similar. Os habitantes da área metropolitana de Lisboa que não puderam deslocar-se a Trás-os-Montes, têm, assim, uma boa oportunidade para comprar chouriças, salpicões, alheiras, presunto, folar, doçaria e artesanato transmontano.
Este ano, como tinha ido à feira em Vinhais, e como tinha vindo de Trás-os-Montes há pouco dias, apenas comprei folar, mas já houve um ano em que arrematei um presunto no leilão!

A Oeiras deslocou-se também um grupo de dezasseis gaiteiros de Vinhais. Gostei de ouvi-los tocar mas a farda, apesar de ser simples e não ser feia, podia ser mais castiça; estar em sintonia com as tradicionais cores do vestuário típico de Trás-os-Montes!


Filho e neto de peixe sabe nadar!








Souto em Moimenta junto à estrada de Vinhais

Gaiteiros de Vinhais em Oeiras



Fraga dos Três Reinos

No termo de "Muymenta"

Qual cavaleiro da Távola Redonda à demanda do Santo Graal, andei eu na fronteira das Terras da Frieira à procura da Fraga dos Três Reinos!

Julguei tê-la descoberto mas, regressado a casa, vacilo na certeza da descoberta.
Pela segunda vez subi ao cabeço onde está o marco 349, no planalto entre a Serra da Coroa e as serras espanholas vizinhas. Será, de facto, este o penedo que há séculos serviu de marco fronteiriço aos reinos de Castela, Galiza e Portugal?
Há muito que os três reinos medievais deixaram de existir. Portugal é uma república, enquanto o reino da Galiza e o reino de Castela e Leão são regiões autómonas do estado espanhol.


Mas o nome coevo, esse, não foi alterado, mantem-se preservado na tradição local!

Há anos atrás já tinha estado no penedo do marco 349, supostamente a Fraga dos Três Reinos.
Como gostaria de fotografar a mítica fraga coberta de neve, vim por duas vezes neste Inverno, à procura dela, a seguir a fortes nevadas.
Em Dezembro a camada de neve era grossa mas anoiteceu tão cedo e andava perdido que desisti de procurá-la.
Agora vim com tempo! Porém, quando, vindo de Chaves pela auto-estrada das Rias Baixas, cercada de montanhas cobertas de neve, não resisti a tanta beleza e fui até Puebla de Sanábria, antes de vir para Moimenta da Raia procurar o penedo.

Marco 348 da fronteira entre Portugal e Espanha.

Olhando para Sul ...

... olhando para Norte, na vastidão austera do planalto, coberto de rochas graníticas, giestas, tojos, carquejas e neve, qual eremita, senti-me bem, em união com a natureza. Visto do espaço imagino que seria um solitário e minúsculo ponto em andamento.

Parte da neve já tinha derretido, aumentando o caudal dos regatos que, nascidos nas serras de Rechouso e da Canda, vão mover moinhos e dar vida ao Tuela.


No alto do cabeço está o marco 349. Será ali a Fraga dos Três Reinos? Baseado no mapa cartográfico do exército que utilizei há anos atrás, quando cá vim pela primeira vez, julgo que sim.

A dúvida surgiu quando, depois de cá ter estado em Janeiro de 2009, li que na dita Fraga dos Três Reinos há três cruzes gravadas, cada uma virada para um reino.


Ora, na fraga do marco 349, onde estive, não vi cruzes no penedo! Mas também não significa que não estejam lá!


Se a Junta de Freguesia de Moimenta ou o Parque Natural de Montesinho cumprissem bem as suas funções já tinham colocado placas a indicar o caminho da fraga aos viandantes solitários.

Assim, quem lá chega? Só moradores e os moços do Parque de Montesinho, em potentes todo-o-terreno! Na parte inicial do percurso, seguindo maus conselhos, fui de carro. Até me dava jeito por causa do tripé pesado, e sempre recuperava algum do tempo gasto na ida, não programada, a Puebla de Sanábria.



Passados 500 metros, começando a derrapar na neve, achei prudente deixar o carro e fazer o resto do percurso a pé.


Para tira-teimas e deixar de cismar se estive ou não no penedo dos Três Reinos, terei de voltar em breve a "Mimenta" à demanda deste meu, porque não, Santo Graal!