sábado, 28 de janeiro de 2012

Mesinha de São Sebastião

Almoço comunitário em Couto de Dornelas - Boticas 







O dia de São Sebastião, 20 de janeiro, marca o fim da época dos cantares de reis. Esta data é festejada em várias localidades de Trás-os-Montes, incluindo na Castanheira, bem perto de Travancas; mas na aldeia de Vila Grande, freguesia de Couto de Dornelas, região do  Barroso, a festa é única. Todos os anos, aí se celebra o santo mártir, com uma missa e almoço comunitário, partilhado com os  milhares de forasteiros que visitam a terra.



Lareira da "Casa do Santo" onde, em mais de vinte potes de ferro, se cozem bocados de carne de porco fumada e arroz, servidos na Mesinha de São Sebastião, juntamente com broa. O pão, a carne e o arroz, antes de irem à mesa, são benzidos pelo padre, na casa do Santo, no final da missa.


A refeição é servida em bancos de madeira, colocados na rua principal de Vila Grande, ao longo de centenas de metros, quer faça mau tempo ou sol, como este ano.


Visitantes e habitantes das sete aldeias da freguesia do Couto de Dornelas - Vila Grande, Gestosa, Vila Pequena, Espertina, Antigo, Lousas e Casal  -  à medida que vão chegando, durante a manhã, escolhem os lugares em que pretendem ficar para o repasto.



À hora da refeição, um dos mordomos cobre a "mesinha" com um pano de linho branco. Outros põem broas, distanciadas à medida de uma vara com 120 cm de comprimento, enquanto um terceiro grupo coloca  uma caçarola com arroz e um prato de madeira de carvalho, para cortar a carne cozida nos potes  de ferro.


Mesa improvisada, no chão, para quem chegou tarde à festa e não encontrou lugar nos bancos de madeira.


Pão bento,  feito de milho  e centeio. Durante os cinco dias que precederam a festa, foram cozidas, no forno do Santo, cerca  de 1200 broas, para serem consumidas no almoço ou vendidas aos visitantes, a cinco euros cada uma.


Tabuleiro com malgas de madeira de carvalho, contendo arroz feito na água que ficou da cozedura da carne curada. Não o provei mas disseram-me que estava saboroso.


Bocados de carne fumada,  da barriga do reco, levados em alguidares de cobre para a 'mesinha'. Se regressar à festa do Couto, como espero,  terei de vir preparado, pelo menos com uma navalha, de Palaçoulo, para cortar as iguarias barrosãs.






Cartaz da festa de 2012


Lendas


De acordo com a tradição, a festa no Couto, em honra de São Sebastião - santo protetor dos animais e de vários males, como a fome e a peste - embora  sendo de origem incerta, remonta à época medieval.




Reza uma lenda que há muitos anos houve na região muita fome e peste e foram tantos os mortos que o povo do Couto - nome pelo qual os habitantes designam a freguesia -  prometeram que se São Sebastião os protegesse da peste, lhe realizariam uma festa, onde não faltaria carne e pão, para quantos nela aparecessem. E assim tem sido.



Há, porém, outra versão, para a origem da Festa das Papas, nome pelo qual a atual festa da 'Mesinha de São Sebastião´ era inicialmente denominada.



Diz a lenda que o povo se esqueceu de fazer a festa ao santo, num determinado ano,  e que, a partir  dessa data,  começaram a acontecer  desgraças.
Em 1809, aquando da segunda invasão francesa, receoso das consequências do incumprimento da promessa, ficou temeroso, ao avistar as tropas francesas perto das aldeias do Couto, na estrada  velha, de Chaves ao Porto.



Sabendo das pilhagens e violações que o exército de Napoleão Bonaparte fazia nos lugares por onde passava, a população  implorou a proteção de São Sebastião, prometendo-lhe que todos os anos fariam uma festa em sua honra, onde não faltaria comida para toda a gente que a ela fosse, se os invasores lá não entrassem.

 

 

Milagre ou não,  diz a lenda  que caiu uma grande nevada à volta do Couto que obrigou as tropas invasoras, a caminho de Amarante e do Porto, a desviarem-se da passagem por Dornelas. O povo destas terras, agradecido, cumpriu a promessa,  renovada, todos os anos, a 20 de janeiro, convicto do amparo do santo.




À festa deste ano acorreram milhares de visitantes, oriundos do Minho e Douro Litoral, principalmente. Havia diversas camionetas de excursionistas que, após o almoço comunitário, se deslocaram à festa de São Sebastião, em Alturas do Barroso. Terminaram o dia  na festa de São Sebastião, em Salto, concelho de Montalegre.  Alguns fazem a ronda das três festas, há vários anos.


Da cidade de Chaves e das aldeias do concelho, tal como Travancas, também houve quem fosse atraído pela ideia de passar um dia agradável, numa festa diferente, deslocando-se a Vila Grande, como o senhor Modesto e a dona Fátima, meus vizinhos.



Alguns convivas, sem dispensarem a marrã da festa,  optaram por levar  farnel. Tiveram, no entanto, de levantar a mesa antes do almoço comunitário.


Feijoada à transmontana, em família, numa casa particular.




Se a festa de São Sebastião se expandir, como é provável,  graças à fama grangeada, tenderá a perder a componente comunitária.  Presumo que seja difícil à população da freguesia manter a festa anual, nos moldes tradicionais, assente no trabalho voluntário  e na oferta de uma refeição a milhares de visitantes.



Para tornar a festa possível, os mordomos vão, com  um mês de antecedência, às casas das sete aldeias da freguesia, recolher carne de porco, farinha e donativos monetários. Todavia, são muitos os visitantes que aparecem, cada vez mais, para o repasto à borla. Indaguei a um dos mordomos quem pagava os custos do almoço; respondeu-me que a Câmara de Boticas contribuia com algum apoio financeiro.




À Festa de São Sebastião não foram só visitantes. Alguns feirantes montaram tendas na aldeia para escoar produtos hortícolas, fumeiro e artesanato .


   


Campanário da igreja de São Pedro, patrono de Dornelas, em Vila Grande. Nas igrejas do Barroso, por influência galega, é frequente a torre sineira ficar separada da igreja.



Exemplar, à porta da igreja, de uma dornela, ou dorna pequena, medida que a freguesia  anualmente pagava de imposto, em mel ou cera, ao arcebispado de Braga, senhorio do couto, concedido à Sé de Braga por D. Afonso Henriques. Couto é uma área geográfica,  onde o senhorio goza do privilégio de impor leis.



Dornelas tem pelourinho. Extinto o concelho no século XIX, passou a pertencer a Boticas.



Não pude assistir à missa, porque a pequena igreja de São Pedro, patrono da freguesia, quando cheguei, não comportava mais fiéis.  No adro, numa parede paralela à igreja, alguém colocou à janela um vaso de cravos.


A componente religiosa da festa, além da missa e da procissão até a Casa do Santo, para benzer o pão, o arroz e a carne,  inclui  o  ato de dar a beijar a imagem de São Sebastião a quem está na 'mesinha'.



Embora nem todos beijem a imagem, são muitos, homens e mulheres, urbanos ou rurais, de diferentes idades e estratos sociais, os que se aproximam  e, numa atitude de reverência, dão o beijo ao santo, tal como se faz  ao Menino Jesus no Natal e à cruz pascal. Reparei que a cada ósculo, o mordomo limpava cuidadosamente a imagem.



Durante a cerimónia, um membro da comissão, faz um peditório, para ajudar a cobrir as despesas da refeição. Nem todos contribuem e quem o faz, salvo exceções, não é generoso na dávida. Coisas da crise...



Em casa, ao ver as fotos, reparei que São Sebastião tinha debaixo do braço um cravo encarnado. Através de uma pesquisa na internet, vim a saber que a força política maioritária na freguesia do Couto de Dornelas é uma lista independente de esquerda, liderada pelo engenheiro  Francisco Xavier Barreto Pires, eleito pela primeira vez em 1997, quando tinha 21 anos. 


A boneca transmontana vendida aos turistas é barrosã! Veste a tradicinal capa de burel, a capucha, como a desta senhora.



Espigueiro, elemento da cultura tradicional barrosã.


Alturas do Barroso

Saí de Dornelas e subi até Alturas do Barroso, onde também havia uma festa em honra de São Sebastião.


Cartaz de 2012

Não conhecia Alturas de Barroso, nem imaginava a beleza deslumbrante que me esperava, na deslocação de Couto de Dornelas e esta aldeia barrosã. As terras podem ser pobres para a agricultura, mas o Criador abençou-as, com paisagens agrestes paradisíacas.


Aliás, o Barroso é uma das regiões mais belas de Trás-os-Montes e de todo o Portugal. É uma região montanhosa, onde seria penoso viver, quando não havia comunicações nem eletrecidade. Por aqui se encontram ruínas de casas de colmo, iguais às dos primitivos habitantes, usadas até há poucas dezenas de anos.  Preservem-se, para que não se perca a memória identitária barrosã.



O núcleo urbano da aldeia é atraente e está relativamente bem conservado.



Ao soalheiro. Se calhar, são minhotas, vindas nas excursões, às festas em honra de São Sebastião, no Barroso.



Mas esta já é uma mulher barrosã, sem dúvida!



Se os do Couto de Dornelas botam no braço do santo um cravo  vermelho, os de Alturas de Barroso enfeitam o andor com  estrelícias cor de laranja, para que não haja equívocos sobre as preferências ideológico-partidárias de quem organiza as festas em honra do santo.



A festa religiosa consiste numa missa com procisão. Da festa profana faz parte uma refeição, durante a tarde, num pavilhão, com entrada paga, pedindo-se uma contribuição igual ou superior a cinco  euros. Ouvi quem achasse caro e ficasse à porta.  Polémica à parte, entrei.




A feijoada à transmontana, feita em potes de ferro, numa enorme lareira, e servida com vinho e pão da terra, estava saborosa. Um consolo gastronómico, devorado com avidez! Bem apaladada e tão diferente da dita feijoada à transmontana que nos servem nos restaurantes de Lisboa!



Cá fora, frente ao pavilhão,  visitantes minhotos a contagiarem transmontanos, com suas danças e músicas alegres.  Por neste dia ter que estar ainda em Travancas, para ver fazer alheiras de Mirandela à moda de Chaves, tive de deixar apressadamente Alturas do Barroso. E como eu gostaria de ir ido também à festa de São Sebastião, em Salto, Montalegre!




Bom, o melhor é regressar um dia a esta encantadora terra, para desfrutar a sua festa, tão diferente da congénere do Couto de Dornelas. 
Barroso, pequeno recanto geográfico do Reino Maravilhoso, mas tão rico na sua diversidade cultural!




2 comentários:

Abilio Salgado disse...

Fiquei curioso em relação à Festa a S.Sebastião e gostaria de lá ir no próximo ano (2014), pergunto: a festa realiza-se no dia 20.janeiro ou no domingo seguinte?

euroluso disse...

A "Mesinha de São Sebastião" realiza-se no dia do santo, a 20 de janeiro.