Coleta fiscal em carne marrã!
Da única vez que visitei Mogadouro, guardava da vila a vaga imagem de uma desolada torre de castelo, em ruínas.
Regressei lá no passado fim de semana, aquando da Feira dos Gorazes, disposto a ficar esclarecido da razão pela qual tem esse nome. Sendo goraz nome de peixe porque haveria uma feira, de vila distante do mar, ter nome alusivo a um peixe? Não fazia sentido! Pelo sim, pelo não, ia a Mogadouro disposto a desvendar o enigma do nome da feira!
Antes de ir à feira, passei pelo castelo onde, desta vez, o encontrei remodelado, assim como ao espaço envolvente. Nos acessos havia obras.
Nas proximidades do castelo, moradoras idosas não me souberam explicar o significado do nome da feira.
Oratório a São Sebastião edificado pelos Távoras
Mas numa pastelaria do centro da vila, um jovem, parente do proprietário, tentou elucidar-me, relacionando o nome da feira com carne marrã, nome que em Trás-os-Montes, antigamente, se dava à carne de porco.
Antes da chegada do costume de se comer posta de vitela assada na brasa e da moda do frango assado, era tradição, nos Gorazes, comer-se entremeada de porco.
Insatisfeito com a explicação, Vítor, nome do jovem, deu-me a ler, então, o texto de um
website onde o historiador António Mourinho afirma que na Idade Média se usava o termo grego
gorax para designar a carne marrã. Portanto, -
eureka - a chave do enigma para a origem do nome da feira está relacionada com carne de porco, ou seja, com gorax.
A carne marrã, ou gorax, era dada, por moradores e feirantes, em pagamento do imposto anual, ao senhorio de Mogdouro - Santa Casa de Misericórdia, após os Távoras terem caído em desgraça - cujos fiscais, ainda em 1768, apareciam nos dias da feira para fazer a coleta em espécie. É desse costume de cobrança do imposto em gorax - ou gorazil, "(...) huma espadoa de porco, a saber, todo o quarto dianteiro com doze costas (...)" - que terá vindo o nome Feira dos Gorazes!
Se antigamente a Feira dos Gorazes era uma feira de fim de colheitas, onde os lavradores vendiam os seus produtos e compravam provisões para o inverno; se era uma feira onde se bebia um copo de vinho e comia a coiracha da marrã num naco de pão, hoje transformou-se numa feira de comércio geral, havendo um palco para espetáculos musicais e pavilhões para expositores. Embora tenha passado pelas alfaias agrícolas e stands de comerciantes, centrei a atenção nas barracas de artesanato e de gastronomia.

Quis pagar o meu imposto à tradição e fui ao restaurante Nossa Senhora do Caminho, o único dentro do recinto, para provar a carne marrã, tradicional da feira. Não apreciei. Duas entremeadas, demasiado salgadas, servidas com batatas fritas, custaram sete euros. A salada de alface foi um suplemento que pedi. Também não correu bem o negócio com a desonesta queijeira de Bruçó que, se não fosse a ameaça de chamar a guarda, ficava-me com o troco de dez euros. A Câmara de Mogadouro deveria estar atenta a estas práticas que lançam a desconfiança nos consumidores e mancham o bom nome da feira.
A conversa com o Vitor prolongou-se, enquanto ia matando a sede. Até deu para perguntar-lhe pelo Maurício, dentista brasileiro, residente em Mogadouro que ficou conhecido graças à sua participação num programa do Big Brother. O jovem é guitarrista do agrupamento musical mogadourense
Rumo Nordeste, tendo atuado na palco da feira na noite anterior.
Trindade Coelho, sentado num pedestal, no largo em frente à pastelaria do guitarrista internauta, descontraído, parece estar a narrar um conto da sua obra Os Meus Amores. O mais ilustre filho da terra suicidou-se em Lisboa, em 1908, aos 47 anos.

Mogadouro tem, anexa ao convento de São Francisco, uma bela igreja maneirista, edificada a partir de 1620, a expensas de D. Luis Álvares, fidalgo da família dos Távoras, senhores de Mogadouro, entre o século XV e a caída da família em desgraça, em 1758, acusada pelo Marquês de Pombal de atentar contra a vida do do rei Dom José I. O convento, edificado no século XV - ou nos séculos XVI e XVII, como aparece noutros sítios? - está ocupado pela Câmara Municipal mas já serviu de quartel desde que Joaquim António de Aguiar, um liberal jacobino, extinguiu, em 1834, as ordens religiosas e incorporou o convento dos frades franciscanos no património do Estado.
O espaço envolvente à igreja e ao antigo convento está arborizado, relvado e decorado com paineis de ferro que contam a história da vila. O conjunto, em simbiose com os edifícios em granito, é harmonioso.

Igreja matriz, junto ao castelo, mandada edificar pela família dos Távoras, no século XVI. A torre sineira quadrangular é um acrescento do século XVII.
Torre do Relógio, no castelo
Igreja matriz e panorâmica da vila, vista do castelo
Bonita rotunda da nova Mogadouro. A pacata vila impressiona pela positiva o viandante!